Fichamento de leitura da parte "A - Domínio Público" Lições de Arquitetura, Herman Hertzberger
PÚBLICO E PRIVADO
Os conceitos de público e privado podem ser interpretados como coletivo e individual. Público é uma área acessível a todos a qualquer momento e a responsabilidade de sua manutenção é coletiva, já o Privado é uma área de acesso limitada a um pequeno grupo ou individualmente onde tem a responsabilidade de mantê-la.
Hertzberger aborda a temática de que dividir o mundo entre público e privado é uma versão mais simplista de ver as coisas e possui uma certa tensão nisso igualmente o modo de pensar em geral e específico. Quando pensamos sobre o "meu espaço" e o "espaço dos outros" (espaço público), temos a visão de uma sociedade que se desconectou, uma sociedade onde as pessoas se isolam e cria isso um afastamento entre as pessoas.
Todos querem ser aceitos, querem pertencer a um lugar e então a arquitetura terá um objetivo maior de hospedagem sem perder a individualidade. Quando ele aponta que “Todo comportamento é determinado por papéis, nos quais a personalidade é afirmada pelo que os outros vêem nele” traz um reforço de que a identidade das pessoas é construída de acordo com as relações com os outros, com o coletivo, ou seja, o espaço vai servir diretamente pra essas trocas acontecerem, ele precisa dessas trocas sociais.
A nossa sociedade oscila em dois extremos: a individualidade exagerada e o coletivo exagerado e o espaço construído podem gerar um certo equilíbrio entre esses esforços. É sempre uma questão de pessoas e grupos em inter-relação e compromisso mútuo, ou seja, a arquitetura não deve ser pensada apenas para o indivíduo ou coletivo, mas sim para as relações entre as pessoas.
Tanto o individualismo nem o coletivismo conseguem entender o ser humano por inteiro, ou seja, ele quer dizer exatamente que o ideal seria contemplar a humanidade como um todo. Tendo isso em vista, penso que isso pode ser refletido no modo como as pessoas constroem casas totalmente isoladas (pensando no indivíduo) ou conjuntos habitacionais sem identidade. Acredito que o meio termo seria projetar espaços que possuíssem convivência, mas também tivessem privacidade / expressão individual de cada um.
O autor aborda também que o individualismo se caracteriza por um estado social onde as pessoas se isolam. As pessoas se expressam totalmente sozinhas e desamparadas embora sejam rodeadas de outras pessoas e com isso, o individualismo glorifica o isolamento e o coletivismo tenta se esconder para não encarar a si próprio. Isso reflete também na arquitetura, como por exemplo as cidades grandes construídas por prédios cheios de pessoas mas não há conexão real e as casas totalmente muradas que não dão acesso a troca entre as pessoas, delimitando um certo isolamento e até fazendo com que ela seja um espaço independente e desconectado do espaço urbano.
Em seguida Hertzberger aborda que o caminho para recuperar a humanidade é justamente uma rebelião do indivíduo contra esse isolamento. Essa rebelião tem como fator principal resgatar o contato real entre as pessoas. Penso que seria como criar espaço onde as pessoas se sintam à vontade para ser quem são e também se sintam confortáveis para estar com os outros. Ele conclui que o futuro só será possível quando se romper com essa questão de escolha do individual e coletivo e aprender que ambos só existem devido ao outro.
DEMARCAÇÕES TERRITORIAIS
Falando em demarcações territoriais, Heartzberger aponta diversos lugares onde é óbvio ou quanto alguns desses são mais públicos ou mais privados que outros. Essas definições são discutíveis sobre diversos fatores: depende do grau de acesso, da forma de supervisão, de quem utiliza aquele espaço, de quem toma conta e das responsabilidades.
*quarto: espaço mais privado em comparação a cozinha e sala de estar. Há uma chave do quarto com você e você é o responsável por manter a organização desse espaço, já a cozinha e sala de estar é dever de todos manter a devida organização para manterem a chave da entrada.
* escola: salas são consideradas privadas em relação ao hall comunitário e esse hall, e escola como totalidade, é considerada mais privada do que a rua.
Ele mostra alguns exemplos sobre o interessante é essa divisão de pensamento entre público e privado e dá um exemplo mais reconhecível de mistura de público com privado: a roupa benéfica para secar nas ruas estreitas de cidades do sul da Europa. Uma expressão coletiva de simpatia pela lavagem de roupa de cada família, que fica suspensa numa rede de cabos que atravessa a rua de uma casa a outra.
■ frase interessante: "Onde quer que indivíduos ou grupos tenham a oportunidade de usar partes do espaço público para seus próprios interesses, e apenas indiretamente no interesse dos outros, o caráter público do espaço é temporário ou permanentemente colocado em questão por meio do uso. Esse tipo de exemplo pode ser encontrado em qualquer parte do mundo."
Ele aborda um ponto interessante também sobre as portas de vidro. As portas de vidro em locais públicos e acessíveis proporcionam ampla visibilidade dos dois lados evitando colisões, por outro lado, o uso das portas sem painéis devem ser colocadas em locais privados e menos acessíveis.
Uma gradação de espaço público demarcada na planta baixa possibilita uma diferenciação territorial. Essa diferenciação permite que a divisão de responsabilidades possa ser esperada no que diz respeito aos cuidados e manutenção dos diferentes espaços.
ZONEAMENTO TERRITORIAL
EDIFÍCIO DE ESCRITÓRIOS CENTRAAL BEHEER (30, 31) - Heartzberger aborda um edifício escritorial que utiliza de uma proposta bem legal para seus funcionários. Nesse edifício, todas as salas possuem uma abertura e são compostas de núcleos cinzentas, a proposta aqui é justamente fazer com que as pessoas personalizem seu espaço de trabalho. Nesse sentido foi possível trazer amor e cuidado nesse ambiente de trabalho devido à dedicação dos trabalhadores.
Ele diz que para que isso aconteça, ou seja, a garantia de que as pessoas vão transformar aquele espaço com seu jeitinho," é preciso algo mais para que isso aconteça: para começar,o espaço deve oferecer as oportunidades, incluindo os acessórios básicos, etc., para que os usuários encontrem os espaços de acordo com suas necessidades e desejos pessoais. Mas, além disso, é essencial que a liberdade de tomar iniciativas pessoais esteja presente na estrutura organizacional da instituição."
A influência dos usuários sobre o ambiente pode e deve ser estimulada, visto que existem condições adequadas — como acesso, definição de territórios, boa manutenção e divisão clara de responsabilidades, o arquiteto precisa estar atento a esses fatores. Quando uma estrutura organizacional impede a participação dos usuários , ou quando o espaço é tão público que ninguém se sente responsável por ele , o arquiteto não deve forçar essa influência. Ainda assim, o arquiteto pode aproveitar o momento de mudança e ocupação de um novo edifício para sugerir ajustes na distribuição de responsabilidades , mostrando que dar mais autonomia aos usuários não gera desordem . Assim, ele contribui para melhorar a relação das pessoas com o meio ambiente , o que faz parte do seu dever profissional.
DE USUÁRIO A MORADOR
Entender bem os conceitos de “público” e “privado” ajuda o arquiteto a definir onde a participação dos usuários é importante no projeto e onde ela tem menos impacto .
Ao planejar o espaço — por meio das plantas, cortes e da organização das instalações —, o arquiteto pode criar condições para que os usuários sintam mais responsabilidade pelo ambiente. Esse envolvimento faz com que eles deixem de ser apenas usuários e se tornem verdadeiros moradores , participando ativamente do arranjo e do mobiliário do local.
O texto destaca que todos — tanto indivíduos quanto grupos — precisam de um “ninho seguro” , ou seja, um espaço pessoal e protegido , onde possam guardar seus pertences, se concentrar e se sentir tranquilos . Sem esse espaço de segurança e referência, é difícil colaborar com os outros ou se sentir realmente parte de algo. O “ninho” funciona como uma base pessoal , um ponto de apoio essencial, pois não há aventura ou descoberta possível sem um lugar seguro para voltar .
*escola onde as crianças possuem um espaço para colocar seus desenhos, seu lugarzinho de descanso individual e etc
O INTERVALO
O conceito de “ intervalo” — desenvolvido nas publicações do Fórum de 1959 — refere-se ao espaço de transição e conexão entre áreas diferentes , especialmente entre territórios com fronteiras ou funções distintas.
A soleira (como a entrada de uma casa) é o exemplo mais claro desse conceito, pois representa o ponto de encontro entre o público e o privado , entre a rua e o lar . Assim, ela não é apenas uma passagem, mas um espaço com significado próprio , onde ocorre o diálogo e a integração entre diferentes dimensões do espaço.
A soleira, enquanto intervalo, representa o espaço da hospitalidade , ou seja, o lugar das boas-vindas e das despedidas . Ela é tão essencial para o contato social quanto as paredes são para a privacidade — ambas as condições são igualmente necessárias. Espaços como entradas, varandas e alpendres funcionam como zonas de transição entre diferentes mundos , permitindo uma mediação entre o público e o privado. Esses espaços, embora exijam investimento e não tenham uma função facilmente mensurável , são fundamentais para articular a construção e a promoção das relações humanas , mesmo que sua importância muitas vezes precisa ser defendida e justificada no processo de planejamento.
DEMARCAÇÕES PÚBLICAS NO ESPAÇO PRIVADO
O conceito de intervalo serve para suavizar a separação entre áreas com diferentes territórios .
O objetivo é criar espaços intermediários que, mesmo pertencendo formalmente ao domínio público ou privado, sejam acessíveis e utilizáveis por ambos os lados , permitindo que seja plenamente aceito que o “outro” também participe do espaço .
*corredores que servem como ruas nos prédios
O texto mostra que, em edifícios onde os moradores têm mobilidade limitada , os corredores funcionam como ruas , organizando a vida coletiva como uma pequena cidade.
Ao usar tapetes ou pequenos elementos , os moradores se apropriam desses espaços , estendendo simbolicamente os limites de suas casas para além da porta. Se o projeto oferece sugestões espaciais específicas , os moradores tendem a expandir sua influência pessoal em direção às áreas públicas , o que melhorou a qualidade do espaço compartilhado em benefício de todos.
CONCEITO DE OBRA PÚBLICA

Comentários
Postar um comentário